Carros, estradas, buracos e escolhas.
24/01/2011
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Objetivamente falando, a vida nunca foi fácil. Cada transcorrer do dia se estrutura em um verídico desafio, no qual o indivíduo deve, bravamente, analisar a situação, planejar seus movimentos, utilizar os seus recursos disponíveis e, assim, transpor a dificuldade. Aposto que assim têm sido vossos dias, assim como foram os meus, até agora. Estamos, pois, vivendo.
Estou, como sempre, diante de mais um desafio: concurso público. Concorrência acirrada, curso preparatório pesado, estudos domiciliares cansativos e pressão psicológica. Já analisei a situação. Já preparei um plano de estudos. Já estou utilizando meus recursos disponíveis. Só que não sei, com fé, se vou conseguir transpor a dificuldade.
Porque, definitivamente, estou sem inspiração, algo crucial para ter êxito em qualquer coisa. Já postei algo sobre a minha insatisfação com a carreira que escolhi seguir. Já disse que minha opção foi mais racional e conveniente, do que passional ou vocacional. E já disse, ainda, que jogar tudo o que amealhei durante os últimos cinco anos seria algo estúpido. Pois bem. Estou a manter-me o mais longe possível da estupidez. Mas, progressivamente, estou cada vez mais próximo da mediocridade, do comodismo e da insatisfação.
Estou convicto, neste momento e nas presentes circunstâncias, de que o melhor caminho a ser perfilhado (portanto, o mais ergonômico) é o que agora estou a rumar: estudar muito, prestar concursos públicos e, um dia, quem sabe, conquistar uma vaga na Administração Pública, para, depois de três anos de efetivo exercício do cargo, conquistar a tão desejada estabilidade e um salário razoável.
Por outro lado, também estou convicto de que esse caminho será bem mais complicado do que de costume, e poderá me levar a um destino cômodo, mas medíocre. Eu escolhi o carro errado. Estou a dirigir uma Ferrari 599 Fiorano por uma estrada vicinal em péssimas condições. Embora esse superesportivo tenha 599 cavalos e vá de 0 a 100 km/h em menos de 4 segundos, não conseguirei sequer atingir o limite máximo de velocidade de 80 km/h. Enquanto que muitos dos meus concurseiros concorrentes, por terem acertado nas suas escolhas (ou, pelo menos, terem se aproximado mais ao acerto), estão a bordo de um Land Rover Range Rover, que, além de ser extremamente potente, possui altura em relação ao solo, suspensão e pneus preparados para lidar com os buracos da pista. Chegarão ao destino mais rápido e mais facilmente.
O que quero dizer com essa analogia automobilística é que, embora eu tenha uma boa formação acadêmica e, modéstia à parte, um grande potencial intelectivo, a falta de motivação, como resultado da minha má escolha, representa um entrave extremamente relevante. Por conseguinte, meus concorrentes, além de terem boa formação e grande potencial, estão felizmente contemplados pela inspiração, mediante o claro vislumbre de satisfação e/ou pelo prazer de estudar Direito, e, ao invés de portarem um entrave, estão é munidos de dispositivos importantes de auxílio.
Pelo visto, a solução do meu problema seria trocar de carro. Em outras palavras, seria reverter a escolha infeliz. Mas quem disse que essa decisão é fácil de ser tomada? Bem que eu queria que a comparação automobilística fosse verídica. Bastaria vender a Ferrari e comprar o Land Rover (e ainda me sobejaria um bom troco). Mas, na vida real, não dá para pegar meu diploma em Direito, o conhecimento adquirido e cinco anos da minha vida, e trocá-los, furtivamente, num simples negócio jurídico, por algo melhor e que me faça mais feliz. Existem infinitas, previsíveis e imprevisíveis consequências. A vida é bem mais complicada.
Depois dessas constatações realistas e deprimentes e das comparações mecânicas (e, confesso, um tanto megalomaníacas), melhor eu parar por aqui. Impera a conveniência de deixar as suposições de lado e enfrentar, da melhor maneira possível, o que de fato há diante de mim.
Afinal, ainda me falta muito chão esburacado pela frente. Não posso ficar parado. E minha Belina Ferrari ainda não sucumbiu às crateras do asfalto.


